4 de agosto de 2012

Sobre a compra da Fazenda Argentina pela Unicamp

Campus em amarelo e fazenda Argentina em vermelho
Uma coisa que tem dado o que falar na comunidade acadêmica da Unicamp é a compra da Fazenda Argentina. Que é um terreno vizinho que permitiria expandir o Campus em quase 50%. Geralmente não me meto em assuntos como esse, mas depois de tudo que vi e ouvi, gostaria de escrever um pouco sobre esse fato.

Antes de mais nada, é importante dizer de onde vêm as verbas das 3 Universidades estaduais paulistas, a USP, a Unicamp e a Unesp. Em 1989, o Governador Orestes Quércia passou a destinar 8,4% da arrecadação do ICMS estadual para estas 3 universidades, com o passar o tempo esse percentual aumentou para 9,57%. Logo, ao contrário de todas as universidades federais, as estaduais não precisam todo ano mendigar verbas para o MEC, já tem sua verba fixa, atrelada ao crescimento da economia do estado. É interessante observar que a maioria absoluta dos alunos destas universidades desconhecem esse fato.

Cidade Universitária da USP em São Paulo (Wikipédia)
O campus principal da USP, no Butantã, na zona oeste de São Paulo, com sua extensão territorial de quase 8 milhões de m² tem muitas áreas verdes, que facilmente permitem a expansão do campus quando necessário. Também é importante salientar que a Faculdade de Medicina e o Hospital das Clinicas da USP, que ocupam muito espaço, ficam foram do campus Butantã, além da Faculdade de Direito e da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH, conhecida como USP Leste). Isso sem contar as inúmeras unidades em outras cidades do estado, como a Escola de Engenharia de São Carlos, a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, entre muitas outras.

COTUCA - O Colégio Técnico da Unicamp (fonte)
Com exceção dos dois colégios técnicos, da Faculdade de Odontologia de Piracicaba, da Faculdade de Tecnologia e da de Ciências Aplicadas de Limeira (e de pequenas propriedades), todas as demais unidades da Unicamp ficam no campus de Barão Geraldo, que tem pouco mais de 3 milhões de m², tirando algumas praças, todas as demais áreas estão já construídas.

Isso fica mais evidente quando se olha para a moradia estudantil, construída na década de 80, cujo terreno tem 55.000 m² (dados do anuário estatístico). Fica a alguns quilômetros do campus, obrigando a Unicamp a manter linhas de ônibus entre eles. Claro, que também pode-se ponderar que construir a moradia fora do campus foi uma maneira de manter as reivindicações estudantis longe da universidade, mas se houvesse espaço, não teriam como argumentar a distância com os estudantes.

A Fazenda Argentina tem pouco mais de 1,4 milhões de metros quadrados e o preço de venda está em 150 milhões de reais. Fazendo as contas se chega a um preço de aproximadamente 107 reais por m². Não tenho muita noção de preços de terrenos, mas chutemos um de 300 m², a esse preço sairia por aproximadamente R$ 32.100. O que é um preço realista, levando em consideração que como a área é vizinha a Unicamp poderia ser transformada em área residencial para repúblicas e pensionatos de estudantes. Existem áreas de conservação permanente, mas não creio que sejam tantas que inviabilizem isso.

Logo da UFABC
O MEC tem um projeto de criação de um campus da UFABC no município de Mauá, em um terreno de aproximadamente 130,6 mil m² que pertence ao INSS, ou seja, também um órgão do governo federal. O valor da avaliação da Caixa Econômica foi de 42,6 milhões, o que da um valor de aproximadamente 326 reais por m², ou seja, mais que o TRIPLO do que a Unicamp pretende pagar por uma gleba do lado da Universidade. Lembrando que linhas elétricas cortam o terreno e que a UFABC não tem nenhum campus em Mauá, então qualquer terreno de fácil acesso seria bom para ela. Além do fato do terreno pertencer ao Governo Federal, ou seja, não prevê lucro na venda.

O dinheiro para compra viria de um extra que a Unicamp recebeu devido à reserva previdenciária dos funcionários, não consegui entender o motivo da devolução.

Ouvi uma proposta da compra de uma área longe da Unicamp, que segundo a proposta daria na mesma, já que a Fazenda Argentina fica longe das entradas. Não concordo com esse ponto de vista, pois um terreno longe do campus, demandariam linhas de ônibus entre os Campi e a moradia, que seriam um custo permanente. Além da construção de um novo restaurante universitário. Aumentando o campus para uma área vizinha, apenas demandaria mais circulares e poderiam utilizar o novo restaurante da civil, um custo bem menor.

Vendo por outro lado, não existe hoje nenhum projeto de ocupação das áreas. Isso considero um ponto fundamental, apesar de crer na hipótese que seria bom ter uma área para a Universidade crescer nos próximos 10, 50, 100 anos, acho isso muito pouco.

Logo da COPPE
A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com a COPPE, a responsável pela pós-graduação em engenharia dela, mantém um Parque Tecnológico que conta com a presença de empresas como Petrobras, Eletrobrás, GE, Usiminas, Schlumberger, entre muitas outras. Parcerias com empresas são de extrema importância para que o conhecimento gerado pelas pesquisas da Universidade seja aplicado na prática, coisa que, infelizmente, não ocorre com frequência.

As Universidades com melhores notas nos cursos de pós-graduação em engenharia do país são a Unicamp e a UFRJ, na frente de outras escolas consagradas como a Poli-USP e ITA. Na UFRJ isso se deve, a meu ver, em grande parte a parcerias da COPPE com a indústria.

Claro, que fazer isso demandaria muito dinheiro para construção dos prédios e urbanização do terreno. Esse dinheiro poderia ser conseguido com parcerias com a prefeitura de Campinas, pois traria mais empresas para região, aumentando a arrecadação de impostos para cidade, e com o governo estadual. As empresas também poderiam construir seus próprios prédios com uma concessão de 20 anos, como ocorre na UFRJ. Poderiam também ser construídos novos laboratórios de pesquisa com verbas provenientes de editais de instituições de fomento a pesquisa. Coisa que já ocorreu com a biblioteca de obras raras.

Vista aérea da Cidade Universitária da Unicamp (fonte)
Contudo, não podemos esquecer que o montante necessário para compra do terreno é muito alto e poderia ser gasto para outras obras. Com certeza deveria ter uma discussão maior na universidade, mas dificilmente ocorreria com todos com a mente aberta. Pelo que pude conversar com os mais diversos setores da Universidade (não fui atrás de nenhum, apenas conversas no cotidiano), cada área apenas quer tirar a sua casca do dinheiro, sem pensar no melhor para a instituição.

Os professores querem que mais prédios de laboratórios sejam construídos. Os responsáveis pelas bibliotecas querem que elas sejam ampliadas e novas sejam abertas. A contratação de docentes. Aumentos de salários. Esquecem do fundamental, esse dinheiro depois de gasto não virá outra vez. Não se pode contratar novos professores (apesar de concordar que o número de professores em cada unidade tem diminuído a cada ano), nem fazer grandes obras que demandariam a contratação de muitos servidores, pois isso inflaria ainda mais a verba reservada a salários da Unicamp.

Para se ter uma ideia o comprometimento da verba da Unicamp com salários é de mais de 80%, com os recentes aumentos aos funcionários chegaram a mais de 90%, um montante muito elevado que pode comprometer a situação financeira da Universidade. Fico preocupado com os aumentos que a universidade terá de conceder depois do fim da greve das universidades federais, já que terá que manter os salários competitivos.

Apesar de discordar de algumas posturas do DCE, gostei bastante das reivindicações deles em relação ao que o dinheiro poderia fazer. Nesse infográfico pedem mais vagas para moradia, término das obras do IG, da FCA e o teatro do IA (apesar de que esse já está licitado e em construção).

Nova praça do ciclo básico (fonte)
Devido ao aumento da arrecadação de ICMS depois da crise a Unicamp vem fazendo muitas obras no campus. Com o dinheiro da reforma da praça do ciclo básico, que é muito mais estética do que de utilidade para comunidade, poderiam ser construídas mais moradias. Essas obras também deveriam ser discutidas.

Podem achar uma contradição eu dizer acima que a Unicamp não pode fazer investimentos e propor a comprar de um terreno tão caro. No entanto, a não compra pode comprometer futuros investimentos na ampliação do campus Campinas resultantes no aumento de arrecadação de ICMS, ele realmente está ficando sem lugares para construções.

A verdadeira discussão deveria ser: a Unicamp quer crescer em Campinas ou nos campi de Limeira? Caso seja a ampliação da Cidade Universitária Zeferino Vaz, a compra da Fazenda Argentina se faz necessária, caso contrário não.

Essa é minha opinião, comente, estou aberto a mudar de ideia, a única coisa que peço é que tenha mente aberta, discuta e veja o melhor para a instituição, não somente para você.

Atualização em 01/12/2012 - O professor Stolfi do Instituto de Computação da Unicamp postou informações no Twitter de que existiriam diversas restrições no uso da Fazenda, como uma parte dela fazer parte do projeto do Ciatec, que deveria obrigatoriamente ser destinado a empresas de tecnologia. Infelizmente não consegui mais achar o que ele escreveu no Twitter, já que se passou bastante tempo. Ele também disse que a área não seria mais comprada, mas sim desapropriada com a Unicamp repassando o dinheiro da indenização para o governo estadual, o que veio a ser confirmado posteriormente.

Algumas empresas de tecnologia, como a Samsung, a Chevron e a Embrapa tem interesse de se instalar nesse terreno, se a compra realmente se concretizar, como apresentado neste artigo.

2 comentários:

Blog disse...

Olá Ricardo,

Por favor leia:
http://www.ic.unicamp.br/~stolfi/misc/2012-06-18-UnicampDaquiA100Anos.txt

que pode ajudar na ampliação do seu ponto de vista sobre o assunto.

RicardoZ disse...

Bom dia

Eu acompanho o professor Stolfi no Twitter, até deveria atualizar o post com informações que a Fazenda seria desapropriada em vez de comprada (mas com a Unicamp pagando o mesmo valor). E mais importante que isso que o uso dela teria algumas restrições (como uma área ter que ser usada para empresas de tecnologia), mas ando com pouco tempo para isso.

Eu concordo com ele que se for apenas para a expansão em unidades de ensino não seria necessária, mas penso, além disso, quem sabe, como citado em meu texto, uma área como na UFRJ? Renome para atrair empresas a Unicamp tem. Também não é realista a Unicamp demolir prédios para reconstruí-los de maneira a ocupar menos espaço, como citado no texto, repercutiria muito feio na mídia e, além disso, só esse custo já faria a Fazenda ter algum sentido.

Abraço.