12 de outubro de 2010

Será que a tecnologia, apesar dos avanços do último século, estagnará?

Neil Armstrong na lua
Não é segredo que nos últimos 100 anos a ciência evoluiu muito, os avanços na mecânica e o advento do motor a combustão permitiram o voo do 14 bis de Santos Dumont com um motor V8 de 50HP, desencadeando os acontecimento que cuminaram na chegada do homem à lua (bom, o Brasil é o único país que considera Santos Dumont o "pai" da aviação, como brasileiro prefiro também fazê-lo). Outro acontecimento marcante é a publicação da teoria da relatividade de Albert Einstein que descobriu a equivalência entre massa e energia e é traduzida na equação mais famosa do século XX: E=MC². Ela permitiu avanços inimagináveis e, infelizmente assim como os aviões, causaram diversas mortes, muitas por acidentes, porém milhares propositalmente.

Um microchip
Outra invenção, talvez a que mais afete as nossas, é o transistor. Um agrupamento com milhões destes (atualmente alguns já possuem bilhões) formam chips que são a base de todos os computadores, celulares, satélites, pendrives, televisões e rádios modernos. Nos carros são responsáveis pela injeção eletrônica, freio ABS, controle de tração. Toda rede de telecomunicações (ou seja, a própria internet, que surgiu durante a Guerra Fria) é controlada por essas pequenas peças de silício.

Com a guerra fria, os EUA e a União Soviética se viram obrigados a manter pesados investimentos em pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias para se manterem competitivos militar e cientificamente. Inúmeras invenções surgiram nessa época e talvez a maior façanha da humanidade tenha acontecido também nesse período: a ida do homem à lua.

Desenhos do Concorde
Os caças eram uma parte do poderio militar dos EUA e a URSS, o primeiro a quebrar a barreira do som foi o Bell X-1 em 1947, o primeiro avião supersônico civil foi o Tupolev Tu-144 desenvolvido por uma empresa russa, no entanto o de maior sucesso foi, sem duvidas, o Concorde, que devido a altos custos operacionais, poluição e ruído deixou de ser usado em 2003, o mundo ficou sem nenhum avião civil supersônico. "Mas poxa vida", será que 40 anos depois do primeiro voo do Concorde não existe tecnologia para fazer outro avião supersônico "popular"? Um dos problemas do Concorde era a baixa capacidade, apenas 100 pessoas, no entanto o Tupolev suportava 167 pessoas, qual seria o limite hoje em dia?

Os satélites do GPS ao redor da Terra
Mas de nada adianta veículos rápidos se não existe um meio de se localizar com precisão, devido a isto o sistema GPS começou a ser desenvolvido em 1974 pelo departamento de defesa dos Estados Unidos e ficou totalmente operacional apenas em 1995, consiste em 24 satélites mais 4 sobressalentes. No inicio era reservado apenas para uso militar, mas com o tempo foi liberado para o uso civil. A união soviética desenvolveu o GLONASS, o projeto foi iniciado em 1976 e concluído em 1991, mas com o fim da União Soviética e o colapso da economia russa a manutenção parou, em 2001 foi retomada e atualmente (2010) existem 21 dos 24 satélites necessários para o sistema. O sistema GPS era apenas para uso militar, mas hoje centenas de milhões de pessoas usam todo dia, seja no celular, no receptor no carro ou mesmo para efetuar medidas. Para alguns pode até parecer fácil manter o sistema, mas é extremamente complicado, já que são necessários todos os satélites operacionais ou surgirão lacunas na superfície da Terra.

Com o fim de Guerra Fria os investimentos militares diminuíram muito, assim as novas descobertas, passamos a aperfeiçoar as invenções anteriores. Os processadores de computador no começo da década de 90, como um Intel 486, tinham aproximadamente 1.200.000 transistors, enquanto agora é possível encontrar processadores com 2.000.000.000 de transistors, como o novo Xeon, isso permite um ganho de velocidade, no entanto freado em partes devido ao uso da mesma arquitetura x86 há mais de 20 anos. Os computadores poderiam ganhar muita velocidade se uma nova fosse desenvolvida pensando na tecnologia atual de produção de semicondutores e de softwares, mas devido aos custos de migrar todos os softwares atuais para a nova arquitetura é descartada. A Intel tentou isso com a arquitetura Itanium, mas não conseguiu e atualmente a arquitetura esta prestes a ser descontinuada.

Lockheed SR-71 Blackbird
Atualmente nos aviões tentamos aprimorar a aerodinâmica e motores, para diminuir o arrasto e consequentemente o consumo de combustível. Antes tentávamos desenvolver novas tecnologias de motor para atingir velocidades maiores, além da aerodinâmica, como foi o caso do Lockheed SR-71 Blackbird, atingia Mach 3.2 (3.2 vezes a velocidade do som). A Embraer (uma empresa brasileira) faz um ótimo trabalho em aerodinâmica, concorrendo em igualdade com as maiores empresas do mundo, como de praxe em outras empresas compra as turbinas de outras companhias. A Airbus que tem a proposta de construir grandes aviões como o A380 que pode transportar mais de 500 pessoas, maximizando os lucros das empresas aéreas, tudo se transformou apenas no interesse por ganhar dinheiro.

Bacteriófago
Uma indústria que enfrenta grandes dilemas são as farmacêuticas, que precisam investir grandes quantias de dinheiro para desenvolver um medicamento, depois lucram por 20 anos cobrando preços altos. A questão é que se não venderem caro os remédios que desenvolveram durante os 20 anos que podem, não terão dinheiro para repetir o ciclo, assim não existirão medicamentos novos. Quem deveria investir mais nessas pesquisas são os governos, assim todas as pessoas teriam acesso aos resultados, não apenas quem pode pagar. Com várias linhas de pesquisas distintas, surgem coisas interessantes, como na URSS que muitas vezes utilizavam bacteriófagos para matar bactérias, em vez dos onipresentes antibióticos. Desde a década de 80 não é descoberta nenhuma nova classe de antibióticos, apenas são desenvolvidos novos produtos derivados das classes já existentes.

Hélice do DNA
Em 1990 os Estados Unidos em conjuntos com diversos institutos de pesquisa internacionais começaram a mapear o genoma humano. Em 1998 Celera Genomics liderada pelo pesquisador Craig Venter anunciou que mapearia o genoma antes das instituições do governo com o intuito de patentear genes. No final das contas não conseguiu nada que prometeu, se juntou ao governo e terminaram ao mesmo tempo e o presidente Bill Clinton não permitiu patentear os genes humanos. Seria justo patentear coisas naturais como uma sequência no código genético de algum organismo vivo? Poderia cobrar de algum agricultor royalties de soja plantada com sementes da colheita passada? Apesar da resposta lógica e de senso comum ser não, não é isso que ocorre. A Monsanto e tantas outras empresas cobram agressivos royalties de agricultores que decidem plantar com suas sementes transgênicas, devido a estas serem mais resistentes a pragas, no entanto não existe certeza que as modificações não sejam prejudiciais aos seres humanos. Em relação ao meio ambiente existe o risco que o pólen de plantações de transgênicos se espalhar em plantações de não transgênicos transformando estas plantações em geneticamente modificadas, além de causar prejuízos ao agricultor que será obrigado a vender sua colheita por um preço menor. Existem teorias que assim como o Chumbo e o mercúrio que se acumulam no corpo humano os transgênicos poderiam de alguma forma fazer o mesmo, ou mesmo causar câncer, nenhuma até hoje comprovada.

O símbolo de uma grande campanha
As pesquisas para cura do câncer avançaram muito, no entanto até hoje não se tem nenhum tratamento definitivo e só é tratado com relativa eficácia se for descoberto no inicio. As pesquisas do câncer são interessantes, já que ao contrário da maioria das doenças não depende necessariamente de nenhum fator externo, nem existe uma maneira eficaz de prevenção, logo qualquer um pode desenvolver. Ao contrário da malária, que como Bill Gates citou, apenas pobres contraem, praticamente não existindo dinheiro para pesquisa sobre ela, enquanto o câncer recebe grandes investimentos.

Talvez a única grande descoberta nesse novo milênio tenha sido a célula artificial criada por Craig Venter, mas ai você pode falar que a vida atualmente esta totalmente diferente da de 15 anos atrás. Realmente, mas quais são as diferenças? A Internet, os telefones celulares e o GPS? São apenas melhorias das tecnologias desenvolvidas, ok, não podemos dizer "apenas", então talvez seja melhor "grandes" melhorias?

Motorola StarTAC
A internet pode ser considerada a melhoria de diversas tecnologias anteriores, como a dos cabos de telegrafo utilizados no século XIX. Em 1858 foi lançado o primeiro cabo transatlântico, que interligava os Estados Unidos e a Inglaterraem 1874 o Brasil foi ligado a Europa, mais tarde em 1956 foi instalado um cabo coaxial que ligava os EUA a Europa e possibilitava 36 telefonemas ao mesmo tempo. Posteriormente em 1988 foram instalados cabos de fibra ótica para telefonia, estes digitais poderiam ser usados para internet, com o tempo foram lançados diversos, como o VSNL Transatlantic que tem capacidade de 5 Tb/s. A capacidade de processamento dos computadores também cresceu muito, como já foi abordado acima, permitindo a construção de grandes parques de servidores que mantém diversos sites e serviços online na internet.

O celular foi inventado em 1973 por Martin Cooper, mas demorou bastante para de popularizar devido ao alto custo e pequena área de cobertura, o sistema GSM usado hoje no Brasil foi desenvolvido na década de 80. Com o tempo e o aperfeiçoamento dos componentes permitiram reduzir o tamanho do celular até que em 1996 a Motorola lança o StarTAC, um celular que além de pequeno pesava apenas 94g. Já o GPS usa tecnologia desenvolvida na década de 70 pelos EUA, unido a capacidade de processamento e recepção que fez os dispositivos GPS caberem na palma da mão.

Ônibus Espacial
Ainda existem pesquisas de ponta que pretendem fazer descobertas inimagináveis, como o LHC que custou aproximadamente 4 bilhões de dólares, se a guerra do Iraque fosse paralisada por 14 dias e todo o dinheiro fosse investido em pesquisa seria possível construir outro LHC. No geral não existem pesquisas como no tempo da guerra fria, a própria Nasa símbolo máximo das conquistas norte americanas tinha planos de novamente visitar a lua novamente em 2020, mas foram cancelados em prol de parcerias com empresas privadas, gerando mais empregos, ajudando os EUA a sair da crise. A questão é que o programa de ônibus espaciais iniciado na década de 80 vai ser descontinuado, assim os EUA não terão nenhum meio próprio de ir ao espaço, dependerão da Rússia ou de alguma empresa privada.

O que quis mostrar é que durante a guerra fria existiam enormes investimentos em pesquisa, que com o fim desta e com as inúmeras crises financeiras minguaram, até antes da guerra fria, durante a primeira e segunda guerras se desenvolveram muitas tecnologias, mas atualmente com os problemas financeiros as pesquisas deixaram de ser prioridade. Faça o seguinte exercício, se coloque no lugar de alguém na década de 80 e se pergunte o que espera nos próximos 20 anos, agora pergunte o que você espera hoje para os próximos 20 anos. Sem dúvidas a resposta do fim da década de 80 será muito mais otimista, apesar de um pouco sonhadora. Agora esperamos melhorias nos meios de comunicação, celulares que nos permitam estar 24 horas na internet, serviços de localização eficientes, enquanto na década de 80, levados pelos diversos filmes de ficção científica, talvez carros voadores, como em De Volta para o Futuro, ou a cura para toda e qualquer doença, fatos que, infelizmente, não ocorreram.

5 comentários:

EsDw disse...

Com certeza uma boa leitura, nunca imaginei que no século 19 a américa estaria conectada a europa; até atualmente, achei q fosse tudo via satélites

existe algum mapa dos cabos atualmente? existem muitos?

discordo em pontos, a ciencia avançou muito, a vida esta muito mais simples que na decada de 70, acho q não vão ao espaço e não fazem um avião supersonico simplesmente pq não é viavel, não teria utilidade, se quizerem testar algo, que usem a estação espacial, muito mais fácil e barato.

RicardoZ disse...

coincidentemente coloquei um link de um site no del.ici.ous com um site com mapas e os cabos nele. http://www.cablemap.info/

é um assunto muito complicado esse, na minha opinião ninguém quer bancar o investimento em P&D de um avião desse porte, não tendo certeza que dará certo, a Airbus bancou o do bilionário A380, mas tinha certeza que faria sucesso

sobre o espaço, também é difícil, muitas tecnologias tiveram que ser desenvolvidas para possibilitar ir à lua, ir ao espaço significa gastar muito em P&D que pode ser usado eventualmente na Terra, a questão é que nenhuma empresa tem dinheiro/interesse para fazer isso, depende de governos...

Ricardo disse...

Aooo!

Gostei do artigo, cara! Parabéns!


Mas acho que a tecnologia não se estagnará não.
Certo que em algumas áreas estamos "voltando", revendo e refazendo melhor.

Tem bastante coisa legal sendo pesquisada, como a Virgin Galactic, se não me engano, que está com uns projetos 'supimpas' de aviação civil à gravidade zero, alguma coisa boa sairá disso, hehe.

Em computação, as pesquisas envolvento física quântica tem recebido grandes investimentos, também;
Falando em física, dizem por aí que o próximo Nobel está nos trabalhos de supercondutividade...

Então ainda tem 'chão' para crescermos em tecnologia, hehehe.

E, sim, acredito que em 20 anos teremos outro meio de transporte em desenvolvimento, pode até não ser um carro voador...
Opa! Já fizeram um desses... Dê uma olhada em um Fusca (de perfil) e uma asa de avião. Se você conseguir uns 170 km/h o 'fusqueta' sairá do chão com certeza!

Hehehehe...

Flw!

Marvel disse...

Desenterrando o defunto!

O grande desafio vejo eu é a "produção" de energia limpa, barata e em grande escala. Principalmente para ser usada nos automóveis, pois ainda usam motores a combustão que tem uma eficiência baixíssima, fora a poluição que causa. Não tem como fugir, os carros terão que ser elétricos mas o problema central é que o mundo na grande maioria produz eletricidade de combustíveis fósseis, aí entraria o sonho da fusão nuclear para resolver o assunto.

RicardoZ disse...

Hehe, faz tempo que escrevi isso mesmo...

Vamos lá, concordo com vc, por enquanto eu considero carros elétricos balela, enquanto existirem termoelétricas, isso só vai desperdiçar energia, já que os combustíveis fósseis vão ter que ser transformados em eletricidade, transmitidos, armazenados, depois transformados em energia mecânica, não tenho nem ideia de quanto, mas a eficiência disso deve ser bem baixa.

Nem tinha pensado nisso quando escrevi o artigo, mas ilustra perfeitamente a ideia com o qual escrevi ele. Existe um grande projeto europeu de chamado ITER, que conta com apoio financeiro também dos EUA, Canadá, Rússia, Japão..., mas o dinheiro investido nem é tão alto para um projeto dessa magnitude.

Se fosse no auge na guerra fria, os EUA (e UE)e a Rússia teriam cada um o seu projeto com verbas muito maiores.

http://en.wikipedia.org/wiki/ITER

Obrigado pelo comentário.

Abraço!